Masculino
Kanye West e Jay-Z: disco que teria apenas cinco canções se estendeu a doze e é um dos melhores lançados este ano (Daniel Boczarski / Getty Images)
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Whatch The Throne traz à tona uma auto-reflexão que poucos astros da música pop estão dispostos a fazer em público
No ano em que as paradas de sucesso da música pop e as vendas de discos foram dominadas por três mulheres, Adele, Beyoncé e Lady Gaga, o gênero oposto precisou agir em dupla para contra-atacar. A reação do pop masculino nasceu do esforço conjunto dos rappers americanos Jay-Z e Kanye West, que lançam agora Watch the Throne. Primeiro disco gravado em parceria pela dupla, o álbum mal chegou às lojas (no Brasil, no próximo dia 30) e já ocupa o primeiro lugar na Billboard, a parada americana. O trabalho, que originalmente era um EP de cinco canções e terminou com doze no repertório, está disparado em vendas nos Estados Unidos e na Europa.
Não é para menos. Jay-Z e Kanye West, que trabalharam juntos em 2001 em uma canção de The Blueprint, disco do primeiro, se tornaram medalhões nos últimos quinze anos calcaldos em superlativos. Os dois assinaram produções esmeradas de álbuns alheios e discos-solo com milhões de cópias vendidas, estabeleceram parcerias bem sucedidas (vide a de Jay-Z com a banda Linkin Park), receberam dezenas de Grammys (27 ao todo) e fizeram shows com produção grandiosa e pendor para a megalomania. Além de vídeoclipes pretensiosos. Runaway, clipe de Kanye West, tem impressionantes 35 minutos de duração.
Parecia uma união tão perfeita – e previsível – que tinha tudo para dar errado. O desafio era conter o ego de Kanye West e despertar a criatividade adormecida de Jay-Z, que vinha mais interessado em lustrar o prestígio alcançado que em correr riscos. Ao ultrapassar o hip hop e se firmar como um álbum pop sofisticado, Watch the Throne conseguiu superar os empecilhos e apresentar os dois artistas em grande momento, com letras acima da média e um mix amplo de batidas e samplers.
São muitos os elementos que contribuem para o bom resultado do trabalho. O disco une produtores experientes como Pharrel Williams e Mike Dean e compositores testados pelo mercado como Terius Nash, autor dos sucessos Baby, de Justin Bieber, e Umbrella, de Rihanna. Além disso, tem um pé na música tradicional, de onde retira, de empréstimo, retalhos de soul, gospel e R&B. O disco conta com trechos de músicas de James Brown (em No Church In The Wild), Otis Redding (em Otis), Sly Johnson e Curtis Mayfield (em The Joy), Nina Simone (em New Day) e Quincy Jones (em Murder to Excellence).
Há ainda convidados - poucos, mas bem escolhidos. A senhora Jay-Z, Beyoncé, participa da faixa Lift Off, Benjamin Hudson, de Why I Love You, e Frank Ocean, de apenas 22 anos, de No Church In The Wild e Made In America. Em quatro canções, um terço do álbum, a dupla se estende para dois públicos que não são exatamente os seus: o da cantora de Single Ladies (Put a Ring On It), e o do rap underground, que nos últimos dois anos se renovou com o Odd Future, grupo do qual Ocean faz parte. Uma jogada não só de marketing. Assista abaixo ao clipe da canção Otis, dirigido pelo cineasta Spike Jonze:
Versos potentes – Mas a orquestração desses elementos poderia soar desafinada sem letras à altura. É o detalhe do disco que destoa positivamente no cenário da música pop, mais acostumada a composições sem profundidade, para consumo rápido e produção de factoides – como Lady Gaga e sua militância de butique. Kanye West e Jay-Z afiaram as canetas nas mansões e nos quartos de hotel onde o disco foi gravado – um andar inteiro de um hotel de luxo em Nova York foi alugado para o trabalho da dupla na última fase de gravação. O rap, que nasceu como uma música de gueto nos anos 1960 e trinta anos depois baixaria a guarda para carros tunados e mulheres seminuas, deixando o protesto político de lado ou levando-o à categoria da apologia ao crime, ganha com Watch the Throne uma abordagem mais ampla. Com o disco, ele passa da questão política à da identidade nacional sem soar panfletário.
Kanye West e Jay-Z citam Sócrates e Platão (No Church in The Wild) ao retratar um cenário que parece a Londres das manifestações recentes como pano de fundo para meditações político-religiosas em que deuses e governantes são postos na berlinda e têm a autoridade contestada. Há uma carta para o futuro (New Day), em que tratam da dificuldade de criar os filhos lembrando que a vida não é só o mar de rosas que o dinheiro lhes permite comprar. Todas as mordomias, grifes e drogas a que o sucesso dá acesso estão listadas em Niggas in Paris e eles até se admitem como parte de um país em crise em Made in America (“Estou tentando ajudar uma nação / para deixá-la para os meus garotos”, diz a letra da canção). A dupla não deixa de flertar com a megalomania, mas não esquece de onde veio nem o quanto teve de trabalhar para se tornar o que é.
O conteúdo do invólucro luxuoso – a capa do disco foi criada pelo estilista Riccardo Tisci, da Ginvenchy – é ao mesmo tempo um tributo ao cânone da música negra americana e uma releitura de batidas e ritmos talhados para as rádios, cujas letras revelam uma auto-reflexão que poucos astros da música pop estão dispostos a fazer em público. Inclusive porque o ego não deixa. Kanye e Jay-Z o domaram a contento, para sorte do disco, que paira, assim, alguns níveis acima do binômio apelo sexual mais batidas datadas a que se acostumaram as concorrentes do lado de lá.
Com uma recém-anunciada turnê de trinta shows, de outubro a novembro deste ano, os dois rappers vão testar no palco o que funcionou como não se esperava no disco. É a oportunidade de estender a convivência para além do estúdio e, quem sabe, nas paradas nos quartos de hotel, iniciar um segundo disco tão bom quanto este.
Saiba mais: - Nas últimas semanas de gravações do disco, um andar inteiro de um hotel de luxo em Nova York foi alugado pela dupla. Em cada quarto, produtores e compositores criavam batidas e samplers que eram apresentados e escolhidos um a um, com cuidado. Mais tarde, nesse mesmo hotel, Kanye West e Jay-Z apresentaram o disco a jornalistas.
- Frank Ocean, de 22 anos, compositor de R&B do grupo de rap Odd Future, é o mais jovem integrante da produção do CD. Ele foi convidado a participar do próximo disco-solo de Kanye West.
- Antes de ganhar fama com a carreira-solo, Kanye West suou a camisa produzindo singles de Jay-Z, Alicia Keys, Janet Jackson e John Legend.
- Jay-Z chegou a ser acusado de agressão no começo da carreira, em uma disputa com rappers da costa Oeste. A rivalidade se agravou no começo dos anos 1990 e dizia respeito ao modo de composição e temas abordados nas letras. De um lado, protesto político eivado de apologia ao crime; de outro, as benesses a que a fama dava acesso, como mulheres, carros e roupas caras.
Milionários e ególatras, os rappers Jay-Z e Kanye West superam a autoestima e as mulheres e lançam o melhor disco de música pop do ano
Rodrigo Levino
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Whatch The Throne traz à tona uma auto-reflexão que poucos astros da música pop estão dispostos a fazer em público
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Não é para menos. Jay-Z e Kanye West, que trabalharam juntos em 2001 em uma canção de The Blueprint, disco do primeiro, se tornaram medalhões nos últimos quinze anos calcaldos em superlativos. Os dois assinaram produções esmeradas de álbuns alheios e discos-solo com milhões de cópias vendidas, estabeleceram parcerias bem sucedidas (vide a de Jay-Z com a banda Linkin Park), receberam dezenas de Grammys (27 ao todo) e fizeram shows com produção grandiosa e pendor para a megalomania. Além de vídeoclipes pretensiosos. Runaway, clipe de Kanye West, tem impressionantes 35 minutos de duração.
Parecia uma união tão perfeita – e previsível – que tinha tudo para dar errado. O desafio era conter o ego de Kanye West e despertar a criatividade adormecida de Jay-Z, que vinha mais interessado em lustrar o prestígio alcançado que em correr riscos. Ao ultrapassar o hip hop e se firmar como um álbum pop sofisticado, Watch the Throne conseguiu superar os empecilhos e apresentar os dois artistas em grande momento, com letras acima da média e um mix amplo de batidas e samplers.
São muitos os elementos que contribuem para o bom resultado do trabalho. O disco une produtores experientes como Pharrel Williams e Mike Dean e compositores testados pelo mercado como Terius Nash, autor dos sucessos Baby, de Justin Bieber, e Umbrella, de Rihanna. Além disso, tem um pé na música tradicional, de onde retira, de empréstimo, retalhos de soul, gospel e R&B. O disco conta com trechos de músicas de James Brown (em No Church In The Wild), Otis Redding (em Otis), Sly Johnson e Curtis Mayfield (em The Joy), Nina Simone (em New Day) e Quincy Jones (em Murder to Excellence).
Há ainda convidados - poucos, mas bem escolhidos. A senhora Jay-Z, Beyoncé, participa da faixa Lift Off, Benjamin Hudson, de Why I Love You, e Frank Ocean, de apenas 22 anos, de No Church In The Wild e Made In America. Em quatro canções, um terço do álbum, a dupla se estende para dois públicos que não são exatamente os seus: o da cantora de Single Ladies (Put a Ring On It), e o do rap underground, que nos últimos dois anos se renovou com o Odd Future, grupo do qual Ocean faz parte. Uma jogada não só de marketing. Assista abaixo ao clipe da canção Otis, dirigido pelo cineasta Spike Jonze:
Versos potentes – Mas a orquestração desses elementos poderia soar desafinada sem letras à altura. É o detalhe do disco que destoa positivamente no cenário da música pop, mais acostumada a composições sem profundidade, para consumo rápido e produção de factoides – como Lady Gaga e sua militância de butique. Kanye West e Jay-Z afiaram as canetas nas mansões e nos quartos de hotel onde o disco foi gravado – um andar inteiro de um hotel de luxo em Nova York foi alugado para o trabalho da dupla na última fase de gravação. O rap, que nasceu como uma música de gueto nos anos 1960 e trinta anos depois baixaria a guarda para carros tunados e mulheres seminuas, deixando o protesto político de lado ou levando-o à categoria da apologia ao crime, ganha com Watch the Throne uma abordagem mais ampla. Com o disco, ele passa da questão política à da identidade nacional sem soar panfletário.
Kanye West e Jay-Z citam Sócrates e Platão (No Church in The Wild) ao retratar um cenário que parece a Londres das manifestações recentes como pano de fundo para meditações político-religiosas em que deuses e governantes são postos na berlinda e têm a autoridade contestada. Há uma carta para o futuro (New Day), em que tratam da dificuldade de criar os filhos lembrando que a vida não é só o mar de rosas que o dinheiro lhes permite comprar. Todas as mordomias, grifes e drogas a que o sucesso dá acesso estão listadas em Niggas in Paris e eles até se admitem como parte de um país em crise em Made in America (“Estou tentando ajudar uma nação / para deixá-la para os meus garotos”, diz a letra da canção). A dupla não deixa de flertar com a megalomania, mas não esquece de onde veio nem o quanto teve de trabalhar para se tornar o que é.
O conteúdo do invólucro luxuoso – a capa do disco foi criada pelo estilista Riccardo Tisci, da Ginvenchy – é ao mesmo tempo um tributo ao cânone da música negra americana e uma releitura de batidas e ritmos talhados para as rádios, cujas letras revelam uma auto-reflexão que poucos astros da música pop estão dispostos a fazer em público. Inclusive porque o ego não deixa. Kanye e Jay-Z o domaram a contento, para sorte do disco, que paira, assim, alguns níveis acima do binômio apelo sexual mais batidas datadas a que se acostumaram as concorrentes do lado de lá.
Com uma recém-anunciada turnê de trinta shows, de outubro a novembro deste ano, os dois rappers vão testar no palco o que funcionou como não se esperava no disco. É a oportunidade de estender a convivência para além do estúdio e, quem sabe, nas paradas nos quartos de hotel, iniciar um segundo disco tão bom quanto este.
Saiba mais: - Nas últimas semanas de gravações do disco, um andar inteiro de um hotel de luxo em Nova York foi alugado pela dupla. Em cada quarto, produtores e compositores criavam batidas e samplers que eram apresentados e escolhidos um a um, com cuidado. Mais tarde, nesse mesmo hotel, Kanye West e Jay-Z apresentaram o disco a jornalistas.
- Frank Ocean, de 22 anos, compositor de R&B do grupo de rap Odd Future, é o mais jovem integrante da produção do CD. Ele foi convidado a participar do próximo disco-solo de Kanye West.
- Antes de ganhar fama com a carreira-solo, Kanye West suou a camisa produzindo singles de Jay-Z, Alicia Keys, Janet Jackson e John Legend.
- Jay-Z chegou a ser acusado de agressão no começo da carreira, em uma disputa com rappers da costa Oeste. A rivalidade se agravou no começo dos anos 1990 e dizia respeito ao modo de composição e temas abordados nas letras. De um lado, protesto político eivado de apologia ao crime; de outro, as benesses a que a fama dava acesso, como mulheres, carros e roupas caras.
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